[CRICRI] Os andarilhos de Taniguchi

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Uma das melhores leituras que fiz ano passado foi GOURMET, de Jiro Taniguchi. Edição nacional lançada pela Conrad, me conectei com o texto de Taniguchi de uma forma muito gostosa. Um protagonista sem nome, com cara de executivo, que sempre acaba comendo em algum lugar diferente por conta da natureza ambulante do trabalho, e nesses locais, rolam encontros com pessoas desconhecidas, conversas filosofantes quando possível e muita, muita comida. Eu não só gosto de zanzar por aí, como de comer, especialmente em viagens e passeios, e em locais descobertos aleatoriamente – então foi certeira essa leitura; o traço de Taniguchi fica num bom meio termo entre o realista e o pictórico, e me deixou no mínimo curioso pra experimentar algumas das refeições do protagonista.

Ler THE WALKING MAN (1992), então, foi como ler uma sequência espiritual de GOURMET – mesmo TWM sendo anterior. Em vez de um homem de negócios, um homem pacato que acaba de se mudar com a esposa para uma área mais rural do Japão. São diversos capítulos do tal homem perambulando, contemplando, sentindo sua nova morada. Ele sobe em árvore para pegar uma aviãozinho das crianças, deita em folhas de cerejeira no chão, brinca com poças depois de uma chuva, pula a grade de um clube para tomar banho de piscina, e por aí vai, tudo derivando de alguma caminhada. Não há continuidade visível entre os capítulos, exceto aqui e ali com o cachorro que o casal encontra e adota, Snowy, e uma concha que o cão encontra e eles decidem devolvê-la ao mar.

Taniguchi não teme fazer uma obra com pouquíssima fala e longas cenas de paisagem, do protagonista olhando ao seu redor, sorrindo, pensando. Não teme experimentar na técnica, também, com umas páginas no meio usando nanquim aquarela, além de retículas muito bem encaixadas, por vezes até imperceptível. IMG_20160628_141853768.jpg

Não teme também uma narrativa mais solta, com finais abruptos nos capítulos; ele quer mostrar os caminhos percorridos pelo protagonista, e isso é o que mais importa – como na cena em que ele desce de um ônibus,
meio desnorteado, afinal, o que ele gosta mesmo é de andar. Numas das melhores sequências, no capítulo “O beco”, o protagonista vai caminhando, sem rumo, até chegar num beco apertado, e os requadros acompanhando o espaço diminuindo.

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Acho curioso como leitura tem muito de momento. Estou com THE WALKING MAN há meses para ler, na estante, me olhando. Por ter gostado tanto de GOURMET, deveria ter sido uma leitura quase que imediata, mas não foi. Em vez disso, nessa lida aleatória que dei encontrei mais significado, mais conexão que talvez tivesse encontrado se lido há meses. Explico: estou em processo de mudança, em locais temporários, e tenho me sentido como o protagonista, perambulando por aí, descobrindo as regiões, encontrando coisas perdidas. Às vezes me pego sorrindo, enquanto ando, porque vi algo que não teria visto se não tivesse passado por aquele local, naquele momento. (E isso tudo reverbera em mim, que acho difícil – pra não dizer impossível – desassociar leitor e obra, autoria e obra e crítica/crítico e obra.)

A ênfase na perambulação do protagonista, com o início in media res do casal já desencaixotando coisas – não sabemos nomes, motivos, nada -, é ótima pra leitura; o conhecimento que o leitor ou leitora vai ter do protagonista vem das andadas, das intenções que podem ser percebidas com os encontros e reações da personagem. Por isso acho estranho o último capítulo, “10 anos depois…”, que mais parece um epílogo encomendado, algo que não estava na edição original. Nela, enquanto perambula, há uma voz, a do andarilho, se perguntando, comentando esse gosto por andar. Me pareceu contraditório com o resto da obra, que preza por mostrar e não dizer, mas nada que prejudique a leitura, de forma alguma. Agora, quando perambular por aí, certamente ficarei mais atento, na esperança de me encontrar com o homem andante.

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